Leonardo Da Vinci | 500 ANOS DE HERANÇA E COMILANÇA INSPIRADAS

Na visão de clérigos conservadores, mas também de críticos de arte agnósticos, “A Última Ceia” possui uma particularidade que costuma escapar ao olhar amador e romântico: Da Vinci parece ter dado mais vivacidade e importância ao pão e vinho postados na mesa, do que aos retratos dos apóstolos.

Há 500 anos, em maio de 1519, Leonardo nos deixava. E muito tempo vai passar antes que se pare de falar, ouvir e ler sobre o visionário nascido em 1452, num vilarejo da pequena Vinci. Não dá pra ser diferente. O homem explorou e desenvolveu incontáveis áreas do conhecimento humano, da astronomia à filosofia, da botânica à anatomia. As coisas da cozinha, inclusive. Uma paixão
intimamente ligada a seus trabalhos artísticos e técnicos.

A maioria desconhece, mas o ícone renascentista e curioso incansável influenciou a gastronomia de forma contundente. Mais jovem, chegou a abrir a primeira taberna vegetariana da história ao lado do sócio Botticelli, em Florença. Conceito avançado demais para uma época em que a carne era símbolo de fartura e status social. O empreendimento faliu e Leonardo mandou-se para Milão, em 1482.

Ali, durante os 17 anos nos quais trabalhou para o Duque Ludovico Sforza – como arquiteto, engenheiro militar, pintor, mestre de cerimônias e banquetes –, Leonardo fez valer cada hora de expediente. Introduziu novas regras de etiqueta à mesa, investigou as propriedades salutares dos alimentos, estudou e escreveu sobre os ingredientes, codificou produtos como o pão, o vinho e o azeite, além de inventar utensílios a rodo: triturador de alho, cortador de ovos em rodelas, moinho de pimenta, quebra-nozes, cortador de massa fina, panela de pressão, saca-rolhas, máquina de cortar pão. Para poupar tempo na cozinha, não poupou ideias.

Nas horas vagas, o que fazia? Pegava seus pincéis e caminhava 15 minutos até uma parede de refeitório, para pincelar “A Última Ceia”. Um pouco dessa contribuição culinária é possível conferir em “Os Cadernos de Cozinha de Leonardo Da Vinci”, livro de Jonathan Routh e Shelagh Routh baseado no “Codex Romanoff”, um manuscrito de Da Vinci redescoberto e recuperado em 1981.

DA VINCI DAS VINHAS
Em reconhecimento aos talentos e serviços geniais prestados até 1498, Ludovico presenteou Da Vinci com um pequeno vinhedo de 8 mil m2, chamado San Vittore. Pertencia aos jardins da Casa degli Atellani – importante família da corte. Um mimo de terra, a poucos passos do Castelo Sforzesco de Milão e da igreja Santa Maria delle Grazie, onde Leonardo dava os retoques finais no cenáculo
vinciano.

Como bom toscano, Leonardo vinha de uma família de vinicultores e apreciava a cultura da fruta. Infelizmente, teve pouco tempo para fazer experiências profundas, curtir as novas terras ou mais taças. Após a invasão das tropas francesas em 1499, deixou a cidade e as uvas para trás. Aqueles terrenos da Casa degli Atellani perderam-se no tempo. Depois, sofreram bombardeios e incêndios.

O magnata italiano Ettore Conti os comprou, e o arquiteto milanês Piero Portaluppi cuidou da restauração nos anos 1920. Foi graças aos netos de Portaluppi que “La Vigna di Leonardo” ressuscitou: escavações na propriedade revelaram vestígios das videiras antigas. Uma força-tarefa constituiu-se para descobrir qual era a uva de Da Vinci. A pesquisa envolveu enólogos, viticultores, a Universidade de Ciências Agrárias de Milão, um geneticista e um especialista em DNA de uvas viníferas. A matéria orgânica centenária coletada forneceu o perfil genético, que foi comparado com as variedades cultivadas no século XV.

A uva original de Leonardo era a branca “Malvasia di Candia Aromatica”. Os experts do projeto a plantaram na estufa, antes de enxertar no local exato e na disposição precisa de cinco séculos atrás (indicados pelos próprios desenhos do nosso meticuloso mestre).

Como é esse vinho? Um branco fresco de leve aroma floral, com toques cítricos, elaborado das uvas Malvasia que hoje crescem na Casa degli Atellani. Para provar o vinho de Da Vinci, você pode reservar e se hospedar em um dos seis apartamentos boutique no jardim de heras da propriedade, antes ou depois de visitar “A Última Ceia”. Sem se preocupar com o “Se beber, não dirija”. São
só 2 minutos a pé.

Texto: Fábio Angelini

 

Fonte oficial: Sociedade da Mesa

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